Tudo muda
28-05-2018

Gosto de imaginar a vida feita de cumes e planícies, uma geografia que oferece inúmeras paisagens ao viajante, com dias de chuva, que favorecem o recolhimento da alma, e dias de muito sol, inspirando os pulmões a se encherem de aromas. Momentos lindos, poéticos, suaves, mas também cumes aparentemente intransponíveis, tudo isso modulando as tonalidades do sentimento de estar vivo.

Tudo muda, ou melhor, todo cambia, como diz o poeta. Um dia, o que era refúgio torna-se o lugar mais perigoso e assustador. E seja lá o que aconteça, como destino ou experiência, o permanente é voltar para o próprio Eu e seguir a diante. Caso torne-se sofrimento crônico ou apenas uma transição, é você quem dará o tom da experiência. Compreendo que, tantas vezes disperso ou fragmentado e atendendo às demandas da vida, o próprio Eu pode se perder no caminho. Mas, afinal, quem disse que não nos perderíamos incontáveis vezes ao longo de uma jornada tão maravilhosa edesconhecida? A incerteza quanto à próxima cena deste espetáculo chamado vida é o que a faz tão interessante, dando-nos razão para continuar. Um propósito. Tal motivo é o que nos mantem firmes diante de tal conturbada caminhada.

No processo de tornar-se alguém, projetamos nossos papéis sociais futuros, como que para assegurar nossa existência. Viver as transformações implica em experienciar o colapso de uma ideia que, até o momento da mudança, definia a ótica com a qual interpretávamos a vida com suas várias cenas. Chega o final de uma forma de viver, podendo estar relacionados aos vínculos, hábitos, ou outras tantas coisas que já não mais fazem sentido no momento presente, ou seja, que perderam a emoção e a função. Quando tudo muda, precisamos encarar momentos de perdas das fronteiras, a morte de certas expectativas, o fim de um modo de vida ea perda do senso de continuidade buscando aceitar e superar a tristeza. É preciso encarar o momento desconhecido iminente. Deve-se entender que a dor é apenas a transição para uma nova existência. É parir-se. Um momento em que se está operando de uma forma completamente diferente, ainda envolto por muitas imagens do ocorrido.

Caso anseie por mudança encarregue-se da tarefa, pois não existe outro que poderá fazê-la a não ser você. Reencontre-se. Olhar pra si é redescobrir os desejos e sonhos que estavam guardados há muitos anos. É colocar em prática aquelas intenções mais sutis submersas na rotina. É lembrar-se de dançar as músicas que te alegravam demais. Criar novas formas de expressar seu talento. Conectar-se com novos assuntos, pessoas interessantes, sabores desconhecidos e ambientes instigantes. Abraçar novas oportunidades para um devir, um fluxo permanente de constante evolução do próprio ser. E assim, regar os brotos de novos planos e conquistar o deleite de alegrar-se com seus próprios feitos.

Compartilhe:
 
Envie por e-mail:
Imprimir: