A delicada relação entre pais e filhos
 
 

Não é preciso ser um especialista para afirmar que a relação entre pais e filhos hoje não é mais a mesma de antigamente. E não foi só isso que mudou: o mundo já não é mais o mesmo. Valores e conceitos que até então eram considerados sólidos e intransponíveis, hoje são relativos e sujeitos à visão de mundo e aos fatos de cada um. E é nesse contexto que as crianças estão crescendo.

Com todas as transformações da família e de papéis, os pais passaram a apresentar muitas dúvidas em relação ao que é justo ou excessivo na educação dos filhos. Muitos não querem repetir a atuação de seus próprios pais, desejam inovar e ser amigos dos filhos. Mas nem tudo ocorre conforme o esperado. Há tanta demanda de compromissos para o adulto de hoje, como a busca da realização profissional, as inúmeras responsabilidades para a manutenção da vida e da qualidade de vida da família, que é comum ficar a maior parte do dia fora de casa. Essa “distância” quase sempre dá origem ao sentimento de culpa que interfere diretamente na educação dos filhos, fazendo os pais acreditarem que dizer “não” ou limitar alguma atividade dos filhos pode ser prejudicial e injusto. Também é comum temerem que o filho não goste mais deles, cederem a qualquer pedido das crianças e celebrarem qualquer coisa que elas façam.

Um outro aspecto negativo da culpa sentida pelos pais é que os torna superprotetores e coloca o jovem na posição de vítima. Esta configuração de papéis fixa um certo jeito de se relacionarem.

E os jovens, como ficam?

Os jovens são na verdade os mais prejudicados atingindo negativamente a formação da auto-estima e da autoconfiança. As crianças e os adolescentes precisam entender que o seu comportamento é inaceitável, e não eles. Os aspectos apontados, com o passar do tempo, vão se acentuando de tal forma que impedirão a construção de uma relação sadia entre os membros da família e provavelmente cerceará o desenvolvimento pessoal do jovem.

Começar a aprender o que é certo desde cedo é muito interessante tanto para o convívio familiar e social como para o processo de aprendizagem de uma forma mais ampla. Podemos afirmar que a educação com limites atua positivamente na organização pessoal, na preparação para a vida e para o mercado de trabalho. Quando pensamos a educação com limites, estamos priorizando o presente, mas também preparando o jovem para o futuro.

Recuperando o reino perdido

Quanto ao jovem, é preciso muita calma, diálogo com paciência e amor para conquistar uma proximidade de qualidade. Ao contrário do que se pensa, ao colocar limites de forma clara e objetiva, toda a família se beneficia. Sem parâmetros claros, as crianças crescem sem valores: não sabem respeitar os pais, pois nunca ouviram uma repreensão simples como "vamos falar um de cada vez". Só comem quando e o que querem, pois jamais os pais foram firmes e exigiram que ela se sentasse à mesa durante uma refeição.

Algumas sugestões

Falamos demais, exageramos na emoção, e em muitos casos, equivocamo-nos na nossa forma de expressar com clareza e demasiada autoridade. Muitas vezes falta-nos a habilidade:

Falar positivamente: Procure dizer o que fazer, ser objetivo, entenderão melhor se der a ordem de uma forma concreta, um limite bem específico ( “Fale baixo”) e evite falar o que não deve fazer ( “Não grite”).

Ser Firme: Falar com clareza, sem gritos e olhando no rosto, com o cuidado de estar na mesma altura que a criança. Por exemplo “Pare! Os brinquedos não são para jogar, pois podem quebrar”. A firmeza tem a medida certa. Não é autoritária nem suave demais. Um exemplo do limite suave seria “Por que não guarda os potes de tinta?” Desta forma suave, observe que o adulto dá ao jovem a opção de obedecer ou não.

Mantenha-se à margem: Quando dizemos “quero que vá dormir agora mesmo” estamos criando uma luta de poder. Uma forma interessante é colocar ”São dez horas, hora de se deitar”. Perceba como não gera conflitos pessoais.

Manter a calma: a forma como falamos é tão ou mais importante do que o conteúdo. Se apresentarmos uma boa regra e se foi apresentada com clareza nosso filho estará disposto a cumpri-la porque o que eles querem é nos agradar.

Recompensar: as recompensas funcionam melhor do que os castigos. É muito mais produtivo elogiar um comportamento adequado do que criticar um inadequado. Entretanto, quando um presente ou dinheiro é dado como recompensa por algo que o filho tenha feito, somente para obtê-lo, essa criança ou adolescente não aprendeu nada com a experiência.

Profissionais de várias áreas estão apontando o surgimento da geração formada por jovens narcisistas, chamada também por alguns de “Geração N”, os quais se sentem no direito de tudo, sem precisar se esforçar por nada.

Educar precisa ser uma atitude feita com carinho e responsabilidade para que haja respeito entre quem impõe e quem obedece. Procurar entendê-los e dar aos mais jovens a opção do que é correto e errado perante a família e a sociedade parece ser um dos ofícios mais difíceis enfrentados pelos pais atualmente, mas certamente é um dever. Nós, profissionais da saúde, precisamos conversar com os pais sobre essas questões não só no consultório, mas também no trabalho, nas escolas. Estas geram um impacto negativo na qualidade de vida da família, na saúde e no rendimento das atividades diárias de todos os envolvidos diretamente. Fortalecer os pais que manifestarem esta necessidade é importante. Orientar e direcionar suas ações, reorganizando conceitos e crenças sobre limites e valores, irá fazer a diferença. Se você se identificou com algum aspecto abordado nesta reflexão, acredite, não está sozinho. Mas pense nos benefícios que uma mudança de atitude poderia trazer para sua família.

 

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